Foi um momento emocionante a Cerimônia de Homenagem e Entrega do Certificado de Honra ao Mérito às Contadoras e Contadores de Histórias, proposta pelo Deputado Estadual Mauro Rubem.
Cada discurso proferido destilava sensibilidade e paixão pela arte da palavra verbalizada. Reuniram-se ali inúmeras artistas que vivem a literatura oral como parte intrínseca de sua própria história — destaca-se que, em sua maioria, mulheres. Da cidade de Goiás, foram homenageadas Nádia Pires, Elenízia da Mata, eu e Aloisio Godinho.
Minha trajetória na contação de histórias perdura por mais de duas décadas! E, bem no início, lá estava ela, minha amiga e comadre Elenízia. Quando as sandálias nos pés ainda eram nossa única condução — como gosta de lembrar minha amiga —, estávamos nós seguindo pelas ruas de Goiás, fantasiadas, com as caras pintadas, carregando nossas tralhas rumo às escolas onde turmas de crianças esperavam por uma história. O nome da dupla era Ana Terra e Maria Flor — a propósito, guardo uma história engavetada com esse título.
Depois vieram minhas filhas, Brisa e Luara, que, desde o ventre, já participaram desses momentos. Nasceram e, logo que aprenderam a acolher as histórias e recontar partes delas — por volta dos três anos de idade—, passaram a integrar ativamente as narrativas. Foi quando surgiu a necessidade de um nome para o grupo: Historiando. Com a chegada do Luan, meu terceiro filho, e da Elis Maria, filha da Elenízia, o grupo passou a contar com seis integrantes, que encantavam ainda mais o público com a presença cativante daquelas “miniaturas de gente”.
A vida seguiu… Elenízia tomou seus caminhos de luta pela valorização da mulher, equidade racial e justiça social, e não pôde mais acompanhar o grupo. Porém, contar histórias — reais e simbólicas — continuou sendo parte de sua missão. O Historiando seguiu, então, com cinco integrantes.
Filhos crescem. É, filhos crescem… Ficam tímidos, mudam-se para estudar, tomam seus rumos. Foi o que aconteceu.
Eu continuo — impulsionada por uma força interior — historiando por aí. Não digo que sozinha, pois por onde vou, peço ajuda à minha platéia de pequeninos e também aos grandinhos, que não hesitam em participar.
Minha motivação? O amor — é o que sei explicar. A recompensa? O sorriso no rosto, o brilho no olhar… O pedido entusiasmado: “Conta outra?”, ou a pergunta cheia de expectativa: “Que dia você vai voltar?”. Contar histórias é parte de quem sou.
Para além de uma homenagem e reconhecimento do mérito aos artistas da palavra falada, o evento do dia 11 de abril, na Assembleia Legislativa do Estado de Goiás, foi um momento de encontros, reencontros e muito aprendizado. Foi, também, uma fonte de motivação, inspiração e apoio mútuo na luta pela valorização dos contadores de histórias em espaços onde ainda somos negligenciados.
Quantos de nós gostaríamos de ter na contação de histórias uma fonte de renda segura! Infelizmente, são poucos os que conseguem fazer dessa arte o sustento digno da família. Creio que a maioria de nós tem de dividir o dom de contar histórias com outro trabalho que garanta o pão na mesa — que é urgente e não espera. Assim, movidos pela paixão, seguimos entre o voluntariado e um ganho aqui, outro ali.
É com tristeza que reconheço uma realidade recorrente: muitos amam a nossa arte, mas nem todos respeitam nossas contas a pagar. Há uma distância nada tênue entre os elogios e a valorização. Quantas vezes somos cercadas de lisonjas e exaltações, seguidas de convites entusiasmados, mas, quando falamos em cachê, a resposta que recebemos é: “Vou ver direitinho e depois te dou um retorno”. O silêncio que segue ao orçamento diz muito sobre como a contação de histórias ainda é vista: um “dom” que não precisa de sustento.
Porém, é com muita alegria que reconheço o oposto. Já vivenciei momentos em que, na ausência de recursos das escolas, professoras custearam do próprio bolso a minha apresentação para proporcionar essa arte a seus alunos. Da mesma forma, cruzei caminhos com gestoras municipais exemplares, que entendem a contação de histórias como um investimento essencial na formação humana.
Infelizmente, essa realidade que nos alegra esbarra em outro desafio: a falta de compreensão sobre o valor da nossa arte, evidenciada pela escassez de recursos em espaços onde ela é essencial — como instituições de ensino e de assistência social, hospitais, casas de acolhimento, centros de convivência para idosos, unidades prisionais e de medidas socioeducativas, centros culturais, bibliotecas comunitárias e, inclusive, em empresas.
O descaso chega também aos editais de cultura, nos quais, na grande maioria, a categoria de contação de histórias é inexistente. Para concorrermos, somos obrigados a buscar brechas, inscrevendo nossos projetos em categorias como o teatro — o que apaga a identidade da nossa profissão.
Por isso, momentos como o de 11 de abril são cruciais: eles transformam o aplauso em reconhecimento e a lisonja em luta por dignidade. Enfim, deixo meu profundo agradecimento àqueles que, com sensibilidade, promoveram a cerimônia de homenagem aos artistas das histórias contadas — um evento que foi, sobretudo, um espaço de acolhimento, fortalecimento e resistência.
Meu muito obrigada ao deputado Mauro Rubem; à Carmelita Gomes, do Jornal Imprensa Criativa; e à Edvânia Braz Teixeira Rodrigues, por essa iniciativa tão necessária. Agradeço também a Antonia Soares André de Sousa, Sam Cyrous, Ivani Magalhães, Lilia Silva Diniz, Florismar Gasparoto, Vera Maria Hoffmann, Luiz Galvão e Elenízia da Mata, pelos discursos e pelas histórias que tanto nos fortaleceram e emocionaram.
Sigamos historiando. Abraços fraternos carregados de gratidão.
Texto por Maria Alexandrina de Castro
Fotos cedidas gentilmente pro Maria Alexandrina Castro
Maria Alexandrina é responsável pela coluna “Literatura do Coração do Brasil”; ela é escritora, contadora de histórias; microempresária, proprietária da ArteVida.
Produtos Artesanais, Artísticos e Culturais; membro do Conselho Municipal de
Políticas Culturais (CMPC), ocupando a cadeira de literatura; integrante do coletivo de autores e autoras da cidade de Goiás











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