Mudança no tom das lâmpadas altera paisagismo urbano, provoca reação popular e reacende debate sobre preservação do patrimônio histórico
A substituição das lâmpadas de iluminação pública na Rua do Encontro, Rua Moreti de Foggia e Praça do Coreto, no Centro Histórico da Cidade de Goiás, tem provocado forte repercussão e intenso debate entre moradores, comerciantes, turistas e defensores do patrimônio cultural. A troca da iluminação tradicional de tom amarelado por lâmpadas de LED de tonalidade mais esbranquiçada alterou de forma significativa o paisagismo noturno e a ambiência histórica desses espaços.
A iluminação amarelada remete aos lampiões, antigos sistemas de iluminação utilizados na época colonial, preservando a identidade visual e o charme característico da antiga capital goiana, reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco. A luz branca é comum em áreas urbanas modernas, acaba por descaracterizar o cenário histórico, mudando a leitura arquitetônica e cultural da cidade.
Comunicado da Prefeitura de Goiás
Diante da repercussão, a Prefeitura Municipal de Goiás divulgou um comunicado oficial, informando que o uso das lâmpadas de LED com tonalidade de 3000K ocorre de forma temporária, devido à diminuição drástica da produção de lâmpadas de vapor de sódio pelo fornecedor, além da falta do produto em estoque. A gestão municipal afirmou ainda que está em busca de lâmpadas substitutas adequadas, compatíveis com os encaixes dos lampiões e com tonalidade apropriada ao Centro Histórico.
Após a repercussão negativa, a Prefeitura suspendeu temporariamente a troca das lâmpadas nas ruas afetadas. A expectativa é que o poder público esclareça os aspectos técnicos da mudança e converse com a comunidade e os órgãos de preservação.
Cidadão vilaboense pede explicação sobre a Troca de iluminação
Apesar do esclarecimento, a polêmica ganhou novos desdobramentos. O empresário, ex-vereador e jornalista vilaboense Marco Antônio Veiga, contestou a intervenção na iluminação. Em manifestação pública nas redes sociais e na TV, ele afirmou que a mudança desfigurou o Centro Histórico e fere diretamente os princípios de preservação cultural.
“O Centro Histórico de Goiás foi desfigurado por conta de uma iluminação que não tem aproximação com o passado, dos anos de 1870, quando a cidade era iluminada por lampiões abastecidos com óleo de mamona. Não é nada contra ninguém, é em favor da minha cidade”, declarou.
Marco destacou ainda que a iluminação pública foi um dos critérios exigidos pela Unesco para que a Cidade de Goiás fosse reconhecida como Patrimônio Mundial, em 2001. Segundo ele, o tema tem um significado especial, já que participou diretamente do processo de reconhecimento internacional.
“Para mim, tem um significado redobrado por ter sido o representante do então prefeito Boadyr Veloso, em Helsinque, na Finlândia, onde a cidade foi proclamada com esse importante título internacional. Não deixarei de cumprir a minha parte, defendendo o patrimônio histórico e artístico de Goiás, berço das minhas origens.”
Nas redes sociais, o assunto segue mobilizando grande engajamento. Enquanto uma parcela da população defende a luz branca por proporcionar maior visibilidade e sensação de segurança, a maioria das manifestações pede a manutenção da iluminação amarelada, considerada mais harmônica com o conjunto arquitetônico colonial e essencial para a preservação da identidade cultural da cidade.
IPHAN também se manifesta sobre
Phaulo Maciel, chefe substituto do Escritório Técnico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em Goiás, explicou o posicionamento do órgão em relação à substituição das lâmpadas no Centro Histórico da Cidade de Goiás.
Segundo ele, a normativa de preservação prevê, sim, a manutenção da ambiência e do aspecto histórico do conjunto urbano, especialmente no que se refere à iluminação com tom mais amarelado, característica marcante da cidade. No entanto, Maciel destacou que não existem critérios específicos definidos pela Unesco quanto à cor exata da iluminação a ser instalada.
“A normativa da preservação prevê a manutenção dessa ambiência e do aspecto histórico do conjunto urbano, presente com essa iluminação de tom mais amarelado. Porém, não há critérios específicos da Unesco quanto à cor da iluminação a ser desenvolvida na cidade”, explicou.
Apesar disso, Phaulo Maciel ressaltou que o IPHAN ouviu atentamente os relatos da comunidade, que manifestou incômodo com a substituição das lâmpadas. Diante disso, o órgão encaminhou um ofício à Prefeitura, recomendando mais cautela nas mudanças e reforçando a importância do diálogo com a população.
“Escutamos a comunidade e alguns relatos de que as pessoas se sentiram incomodadas com a troca dessas lâmpadas. Por isso, encaminhamos um ofício à prefeitura, recomendando mais cautela e que a comunidade seja consultada antes de qualquer mudança que possa modificar essa ambiência existente hoje no Centro Histórico da Cidade de Goiás”, afirmou.
A expectativa agora é que a Prefeitura consiga, em breve, adquirir lâmpadas adequadas ao padrão histórico, restabelecendo a iluminação tradicional que há décadas caracteriza o centro da Cidade de Goiás.
Higor César Ferreira- Repórter e editor do Jornal Imprensa Criativa cidade de Goiás
Fotos por Maria Dulce Loyola Teixeira







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