Press "Enter" to skip to content

Crônica de uma tarde aborboletada – Coluna “Literatura do Coração do Brasil” por Maria Alexandrina

Compartilhe

                                     Crônica de uma tarde aborboletada 

Senti algo se mexer no meu pé. Depois da leitura de um livro, eu e minha mais nova afilhada estávamos sentadas, tomando um lanche à mesa do quintal — debaixo do pé de maracujá. 

Então, senti alguma coisa leve se mover em meu pé esquerdo, que estava suspenso a alguns centímetros do chão, pois minha perna esquerda estava cruzada sobre a direita. Sacudi. Instintivamente, sacudi. Movida também por aquele instinto de sobrevivência — sou uma daquelas pessoas que se assustam à toa com insetos —, olhei pra baixo pra ver do que se tratava. Sacudi e olhei ao mesmo tempo. 

Era uma borboleta: a “borboleta-do-maracujá”. Quando sacudi e olhei, vi-a ser lançada do meu pé até o chão. O inseto, inofensivo, de asas tortas, se esforçava numa caminhada cambaleante. Minha pequena afilhada, atenta ao meu movimento brusco, seguiu meu olhar assustado e disse, com voz doce: “É uma borboleta. Ela tá machucada.” 

Enquanto a criança ainda falava, um pensamento me atravessou: “Por que suas asas estariam tortas?” Em seguida, em resposta a ela e a mim mesma, repliquei: — “Ela deve ter acabado de sair do casulo; por isso está com as asas tortas”. Não sei de onde tirei essa conclusão tão depressa. Eu sabia pouco sobre borboletas — apenas o essencial da metamorfose: lagarta se transforma em casulo, fica por alguns dias encasulada, e então sai borboleta. Era isso que eu sabia — e já me encantava. 

Minha conclusão instintiva e cheia de incertezas, me fez lembrar do meu poema “Desejo de ventania”, publicado recentemente nesta coluna. Daí pensei: se eu estiver certa, borboleta, quando sai do casulo, não está pronta pra voar! Fiquei com isso martelando na cabeça o resto da tarde. 

Segui com minhas tarefas. Mas entre uma e outra, a imagem da borboleta — suas asas tortas, seu andar cambaleante, meu poema — insistia em aparecer. Até que, no finalzinho da tarde, no encontro com a noite, durante uma oração, a borboleta ressurgiu em meus pensamentos. Abandonei a oração, peguei o celular e fui pesquisar. Digitei no Google: “uma borboleta quando sai do casulo já está pronta para voar?”. 

A resposta: “Não, uma borboleta não sai do casulo pronta para voar imediatamente. Após sair do casulo, a borboleta precisa bombear o fluido corporal para expandir suas asas e, depois, esperar algumas horas para que as asas sequem e endureçam antes de poder realizar o seu primeiro voo”. 

Diante disso, percebi que precisava retificar a última estrofe do meu poema. Ele ficou assim: 

 

Tudo estava calmo 

E ela gostava da calmaria 

Só que naquele dia 

seu desejo era de ventania 

  

Braços abertos 

Asas nos pés 

Cabelos soltos a se abagunçar 

  

Borboleta quando sai do casulo 

não sai pronta pra voar 

mas tão logo estará 

 

Fraterno abraço, e até a próxima.  

Por Maria Alexandrina 

Foto da capa feito por inteligência artificial 

Maria Alexandrina é responsável pela coluna “Literatura do Coração do Brasil”; ela é escritora, contadora de histórias; microempresária, proprietária da ArteVida.
Produtos Artesanais, Artísticos e Culturais; membro do Conselho Municipal de
Políticas Culturais (CMPC), ocupando a cadeira de literatura; integrante do coletivo de autores e autoras da cidade de Goiás

Comments are closed.

Mission News Theme by Compete Themes.