Crônica de uma tarde aborboletada
Senti algo se mexer no meu pé. Depois da leitura de um livro, eu e minha mais nova afilhada estávamos sentadas, tomando um lanche à mesa do quintal — debaixo do pé de maracujá.
Então, senti alguma coisa leve se mover em meu pé esquerdo, que estava suspenso a alguns centímetros do chão, pois minha perna esquerda estava cruzada sobre a direita. Sacudi. Instintivamente, sacudi. Movida também por aquele instinto de sobrevivência — sou uma daquelas pessoas que se assustam à toa com insetos —, olhei pra baixo pra ver do que se tratava. Sacudi e olhei ao mesmo tempo.
Era uma borboleta: a “borboleta-do-maracujá”. Quando sacudi e olhei, vi-a ser lançada do meu pé até o chão. O inseto, inofensivo, de asas tortas, se esforçava numa caminhada cambaleante. Minha pequena afilhada, atenta ao meu movimento brusco, seguiu meu olhar assustado e disse, com voz doce: “É uma borboleta. Ela tá machucada.”
Enquanto a criança ainda falava, um pensamento me atravessou: “Por que suas asas estariam tortas?” Em seguida, em resposta a ela e a mim mesma, repliquei: — “Ela deve ter acabado de sair do casulo; por isso está com as asas tortas”. Não sei de onde tirei essa conclusão tão depressa. Eu sabia pouco sobre borboletas — apenas o essencial da metamorfose: lagarta se transforma em casulo, fica por alguns dias encasulada, e então sai borboleta. Era isso que eu sabia — e já me encantava.
Minha conclusão instintiva e cheia de incertezas, me fez lembrar do meu poema “Desejo de ventania”, publicado recentemente nesta coluna. Daí pensei: se eu estiver certa, borboleta, quando sai do casulo, não está pronta pra voar! Fiquei com isso martelando na cabeça o resto da tarde.
Segui com minhas tarefas. Mas entre uma e outra, a imagem da borboleta — suas asas tortas, seu andar cambaleante, meu poema — insistia em aparecer. Até que, no finalzinho da tarde, no encontro com a noite, durante uma oração, a borboleta ressurgiu em meus pensamentos. Abandonei a oração, peguei o celular e fui pesquisar. Digitei no Google: “uma borboleta quando sai do casulo já está pronta para voar?”.
A resposta: “Não, uma borboleta não sai do casulo pronta para voar imediatamente. Após sair do casulo, a borboleta precisa bombear o fluido corporal para expandir suas asas e, depois, esperar algumas horas para que as asas sequem e endureçam antes de poder realizar o seu primeiro voo”.
Diante disso, percebi que precisava retificar a última estrofe do meu poema. Ele ficou assim:
Tudo estava calmo
E ela gostava da calmaria
Só que naquele dia
seu desejo era de ventania
Braços abertos
Asas nos pés
Cabelos soltos a se abagunçar
Borboleta quando sai do casulo
não sai pronta pra voar
mas tão logo estará
Fraterno abraço, e até a próxima.
Por Maria Alexandrina
Foto da capa feito por inteligência artificial
Maria Alexandrina é responsável pela coluna “Literatura do Coração do Brasil”; ela é escritora, contadora de histórias; microempresária, proprietária da ArteVida.
Produtos Artesanais, Artísticos e Culturais; membro do Conselho Municipal de
Políticas Culturais (CMPC), ocupando a cadeira de literatura; integrante do coletivo de autores e autoras da cidade de Goiás












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