A Fundação foi criada em 1970 e mantém documentos raros do século XVIII, XIX e XX, jornais históricos, acervos pessoais e registros oficiais da antiga capital, apesar de sobreviver sem apoio financeiro do poder público
Localizada na Rua da Abadia, nº 11, no Centro da Cidade de Goiás, a Fundação Educacional da Cidade de Goiás (FECIGO), popularmente conhecida como Arquivo Frei Simão Dorvi, é hoje um dos mais importantes guardiões da memória goiana. Criada em 1970 pelo religioso italiano Frei Simão Dorvi, a instituição abriga um dos maiores acervos da história da antiga capital, com registros que atravessam séculos e ajudam a reconstruir a vida política, social, cultural e religiosa do estado.
Da criação ao prédio próprio: uma trajetória marcada por deslocamentos
A Fundação nasceu na década de 1970, acompanhada da antiga Faculdade de Filosofia da Cidade de Goiás, hoje Universidade Estadual de Goiás Câmpus Cora Coralina, inicialmente, funcionou em diferentes prédios da cidade, entre eles o espaço onde atualmente está o Museu do Confalone, próximo à Igreja do Rosário, e em unidades ligadas ao Lyceu e à Faculdade de Direito.
As mudanças constantes colocavam em risco o acervo, até que, após a morte de Frei Simão, recursos deixados por ele, incluindo terras no Ferreiro que permitiram a compra da sede atual. Desde então, já na década de 1980, a Fundação permaneceu no endereço onde funciona até hoje.

Arquivo Frei Simão Dorvi: o coração da memória vilaboense
Oficialmente registrada como FECIGO, a instituição adotou o nome Arquivo Frei Simão Dorvi em homenagem ao seu fundador, que dedicou 41 anos de vida à Diocese de Goiás e ao desenvolvimento cultural da cidade. O arquivo reúne milhares de documentos preservados em caixas organizadas por cor e tipologia:


Documentos oficiais
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- Caixas azuis: acervo do Cartório do 1º Ofício do Registro Civil
- Caixas vermelhas: registros da Câmara Municipal e da Prefeitura de Goiás
- Atas originais da Câmara de Vila Boa do século XVIII
- Documentos sobre compra e venda de escravos
- Inventários e decisões administrativas da época em que Goiás era capital do estado
- Acervos pessoais

Estão preservados os arquivos de:
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- Acari de Passos Oliveira
- José Mendonça Teles
- Elder Camargo de Passos
- Bento Fleury
- José Peixoto da Silveira
- Trechos do acervo de Goiandira Ayres do Couto
Conversamos com a diretora executiva da Fundação Frei Simão Dorvi, Maria de Fátima Cançado, ela explicou quais acervos são encontrados neste local:
“Temos também o fundo do Mendonça Teles, cuja biblioteca foi adquirida pela Fundação. É um acervo riquíssimo, com diversos livros importantes, inclusive primeiras edições e obras de literatura de grande relevância. Além dele, temos o acervo do Elder Camargo de Passos, que você está vendo aí; o do Pedro Fleury; o do próprio Frei Simão; e parte do acervo da Goiandira do Couto, que também veio para cá. Há ainda os fundos ligados à música, como os de Acary de Passos e Peixoto da Silveira.”, descreve a diretora executiva da Fundação.
“São várias personalidades com forte importância histórica para o estado de Goiás. E os fundos arquivísticos dessas pessoas estão sob a nossa guarda. Quando assumimos um acervo, assumimos também a responsabilidade de zelar por ele. Por exemplo, o acervo da Meire Baiocchi foi doado diretamente para nós, ele já pertence à Fundação. O do Mendonça Teles nós compramos.”, diz Fátima.
Existem casos em que o material continua pertencendo às famílias ou aos responsáveis, mas fica sob a custódia da fundação, cuidar desse tipo de acervo exige tempo, conhecimento técnico e estrutura adequada.
O espaço também abriga o maior acervo do Arquicongo, resultado das pesquisas de Meire Baiocchi sobre cultura negra e indígena em Goiás, especialmente sobre a figura histórica de Dona Procópia, de Cavalcante.
Jornais históricos
A Fundação guarda praticamente todos os jornais que circularam na cidade ao longo das décadas, incluindo:
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- A Voz do Povo
- Democrata
- Voz do Sul
- Cidade de Goiás
- Lindador (jornal católico)
- Vilaboense
- Além de periódicos recentes
Pesquisadores, escritores e jornalistas visitam regularmente o local em busca de fontes e documentos originais.
Digitalização e parcerias garantem a sobrevivência do acervo
A Fundação mantém um projeto contínuo de catalogação e digitalização de documentos. O trabalho é conduzido por uma equipe reduzida, porém especializada, e assegura que o acervo esteja protegido contra o desgaste natural do tempo e eventuais situações.
O projeto é financiado exclusivamente pelo Sicoob, que oferece apoio financeiro para a digitalização. Além disso, a Fundação mantém colaborações com o Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), Ministério Público, Procuradoria Federal e outras entidades que contribuem com doações e materiais esporádicos.
Mesmo reconhecida pela relevância histórica, a instituição não recebe apoio financeiro das esferas municipal, estadual ou federal, sobrevivendo graças às próprias iniciativas, pequenas taxas de pesquisa e projetos paralelos.
Equipe e funcionamento
A manutenção do arquivo é realizada por uma equipe composta por:
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- Maria de Fátima Cançado, diretora executiva
- Mateus Gustavo, assistente administrativo
- Lucas Cauã, integrante do projeto de extensão da UEG e também do projeto de digitalização SICOOB 2025.
- Liliane Viana Machado, integrante do projeto de digitalização SICOOB 2025.
- Catalogadores e colaboradores voluntários
O site oficial da instituição está em fase final de conclusão, com lançamento previsto para dezembro, sob responsabilidade do profissional de TI Bruno Castro. A Fundação também mantém um perfil ativo no Instagram.
Veja abaixo os links para acesso ao site e Instagram:
https://www.instagram.com/fundacaofreisimaodorvi/
O atendimento ao público ocorre de segunda a sexta-feira, das 8h às 11h e das 13h às 17h, nos feriados, o espaço não abre, mas durante o período de férias incluindo os meses de julho dezembro o funcionamento é mantido, com exceção apenas do recesso de Natal e ano novo.
Projetos e perspectivas
Além da preservação documental, a Fundação pretende ampliar suas atividades culturais. Um dos planos é a criação do Museu da Música da Cidade de Goiás, aproveitando parte do acervo musical que a instituição já possui. A proposta ainda enfrenta entraves burocráticos para obtenção de prédio adequado, reforçando a importância do imóvel próprio.
O espaço também recebe lançamentos de livros e atividades pontuais de grupos culturais da cidade.
Papel cultural e histórico
Mais do que um arquivo, a Fundação Frei Simão Dorvi é considerada um lugar de memória, fundamental para a pesquisa histórica, produção acadêmica e preservação de documentos que narram a formação social, política e cultural da região.
Com parcerias, novas lideranças e investimento em tecnologia, a instituição reforça seu compromisso de manter viva a história vilaboense para as próximas gerações.
Entre os materiais mais raros está um conjunto de documentos do século XVIII, incluindo atas da antiga Câmara Municipal de Vila Boa, época em que a cidade era capital do Estado. Essas atas tratam de temas sensíveis e históricos, como registros sobre escravizados, inventários, compra e venda, decisões administrativas e documentos do Senado da Câmara, que funcionava como principal órgão político local no período colonial.
Um patrimônio histórico indispensável para Goiás
Com documentos que remontam aos primórdios da antiga capital e registros fundamentais para compreender a formação social, política e cultural do Estado de Goiás, o Arquivo Frei Simão Dorvi se consolidou como um dos mais importantes centros de memória do Centro-Oeste.
Apesar da escassez de recursos, a Fundação segue firme na missão de preservar, organizar e disponibilizar ao público um patrimônio inestimável, garantindo que a história goiana permaneça acessível às futuras gerações.
Mudanças na Presidência e fortalecimento institucional
A fundação passa por um novo momento administrativo. Segundo informou a diretora executiva, Maria de Fátima Cansado, a instituição conta hoje com uma nova liderança:
“Recentemente entrou para a instituição o Leonardo Lacerda que já era membro. Ele é diplomata, morou muitos anos no exterior, mas é filho daqui. Hoje, ele assumiu a presidência da Fundação, que era do Elder Camargo de Passos. A vice-presidente é a Maria Dulce Loyola e eu atuo como diretora executiva”, explicou.
A mudança é vista internamente como um passo importante para ampliar projetos e consolidar parcerias.
Higor César Ferreira- Repórter e editor do Jornal Imprensa Criativa cidade de Goiás







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